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Claudia Cardinale! Bilhetes já disponíveis para a retrospetiva na Cinemateca
Já estão disponíveis os bilhetes para a retrospetiva dedicada a Claudia Cardianale, que a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema acolhe em parceria com a 19.ª Festa do Cinema Italiano, ao longo de todo o mês de abril. Claudia Squitieri, produtora cultural e presidente da Fundação Claudia Cardinale, apresenta três sessões especiais nos dias 1 e 2 de abril: La ragazza con la valigia, de Valerio Zurlini, Otto e Mezzo, de Federico Fellini, e Il Gattopardo, de Luchino Visconti.
Créditos: Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema
Claudia Cardinale!
Claudia Cardinale foi uma das maiores vedetas do cinema europeu, mas sobretudo uma das últimas grandes estrelas do tempo em que o cinema europeu, particularmente o cinema italiano mas não apenas esse, era “capaz de tocar toda a gente ao mesmo tempo”, para citar uma ideia de Jorge Silva Melo. E, de facto, de Luchino Visconti a Federico Fellini, de Valerio Zurlini a Luigi Comencini, consultar a lista de realizadores com quem Cardinale trabalhou é encontrar um mundo onde não havia grande distinção entre o espetáculo “popular” e o espetáculo “autoral”. Dizendo de outra maneira, seria possível contar a história do cinema europeu a partir da filmografia de Claudia Cardinale, dos anos 1950 ao século XXI – porque ela trabalhou praticamente até ao fim da vida (o seu último em crédito em filmes data de 2022), e gabava-se disso, sem deixar de reconhecer o privilégio que era, para uma atriz octogenária, continuar a receber propostas de trabalho.
Nascida em 1938 na Tunísia, filha de imigrantes sicilianos, Cardinale chegou ao cinema de maneira fortuita, propulsionada pela sua beleza física. Com 17 anos ganhou um concurso de “Italiana mais Bonita da Tunísia”, cujo prémio era uma viagem ao Festival de Veneza. Deu nas vistas de várias produtores, recebeu um convite para estudar representação em Roma, um curso que chegou a frequentar mas de que desistiu, preferindo voltar à Tunísia quando as portas do cinema pareciam abrir-se-lhe – uma renitência face ao mundo do cinema, face ao estrelato, que no fundo nunca a abandonou, e que enquadrou sempre muitas das suas escolhas e das suas decisões. Por exemplo, quando voltou costas a uma carreira no cinema americano, em que parecia bem lançada, por não gostar da maneira como se sentia tratada nem ter vontade de se mudar para Hollywood (onde nunca estabeleceu residência, apesar dos vários filmes que aí fez). Também nunca lidou bem com o seu estatuto de “sex symbol” – em que chegou a ser considerada como a grande rival de Brigitte Bardot – e outra coisa de que se gabava era de nunca se ter deixado filmar despida.
Começou por pequenos papéis, no final dos anos 50, o mais famoso dos quais nos SOLITI IGNOTI de Mario Monicelli, e nesses filmes iniciais a sua voz era dobrada, porque Cardinale não falava bem o italiano continental, só o dialeto siciliano dos seus pais e o francês e o árabe da sua educação tunisina, e porque os produtores tinham algum receio da sua voz rouca, que também era o resultado dos dois maços de cigarros que fumava diariamente – é um pouco surpreendente descobrir que só se ouviu a verdadeira voz de Cardinale a partir de 1963 e de OTTO E MEZZO, tendo sido Fellini a quebrar o “tabu”, um tabu que a atriz nunca levou a mal, e na sua timidez até encorajou, por considerar que tinha “uma voz esquisita”. Independentemente disso, o filme mais marcante dos iniciais de Cardinale, aquele que a projetou decisivamente para o firmamento das estrelas do cinema europeu, foi a RAGAZZA CON LA VALIGIA de Valerio Zurlini, em 1961. Cardinale sempre reconheceu quão decisivo fora o encontro com Zurlini, não só pelo sucesso do filme, mas porque o realizador a “compreendeu imediatamente”, e lhe “ensinou tudo sem lhe exigir nada”.
A partir daí estava desimpedido o caminho para o passeio de Cardinale pelos maiores filmes dos anos 60, dos grandes mestres (Fellini, Visconti) aos pequenos mestres (Pietrangeli, Maselli), com a sereia do cinema americano a chamá-la rapidamente – logo em 1964 foi escolhida por Blake Edwards para THE PINK PANTHER, e embora tenha feito vários filmes em contexto hollywoodiano essa ficou como a melhor recordação, e Edwards o realizador americano com quem mais gostou de trabalhar (tanto assim que voltou em pequenas participações nas futuras sequelas de PINK PANTHER que Edwards dirigiu). Nos anos 70, acompanhando também as próprias transformações do cinema europeu, foi sendo progressivamente atraída para projetos de “autor”, mais ou menos “experimentais”, sem receita prescrita, e até algo radicais – é assim que a vamos encontrar no cinema de Werner Herzog (a loucura de FITZCARRALDO) ou no de Marco Bellocchio (ENRICO IV), sem esquecer o desejo, proferido ao longo de anos, de um dia trabalhar com Manoel de Oliveira, que se veio a concretizar in extremis, na última longa-metragem (GEBO E A SOMBRA) do realizador português.
Este é, então, o trajeto que propomos, uma viagem por dezasseis dos mais memoráveis momentos da obra desta atriz incomparável, capaz de ser sempre um pouco de tudo, por vezes muito cómica, outras muito trágica, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo, e uma atriz que “marcou” os filmes, que os tornou impensáveis se, porventura, outra atriz tivesse sido escolhida para os papeis que lhe couberam. Razões para exclamar: Claudia Cardinale!
A abertura da retrospetiva conta com a presença de Claudia Squitieri, Presidente da Fundação Claudia Cardinale e filha da atriz e do realizador Pasquale Squitieri (de quem será exibido CORLEONE, protagonizado por Cardinale).
Créditos: Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema
PROGRAMAÇÃO
1 abril
15h30 — I soliti ignoti, de Mario Monicelli
18h30 — La ragazza con la valigia, de Valerio Zurlini *
21h30 — Otto e mezzo, de Federico Fellini *
*Sessões com a presença de Claudia Squitieri
2 abril
15h30 — Il giorno della civetta, de Damiano Damiani
18h00 — Il gattopardo, de Luchino Visconti *
19h30 — The Pink Panther, de Blake Edwards
*Sessão com a presença de Claudia Squitieri
6 abril
16h30 — The Pink Panther, de Blake Edwards
19h30 — Il giorno della civetta, de Damiano Damiani
7 abril
15h30 — La ragazza di Bube, de Luigi Comencini
19h30 — I soliti ignoti, de Mario Monicelli
8 abril
15h30 — Gli indifferenti, de Francesco Maselli
19h30 — Libera, amore mio…, de Mauro Bolognini
21h30 — Vaghe stelle dell’Orsa…, de Luchino Visconti
9 abril
15h30 — The Professionals, de Richard Brooks
10 abril
15h30 — La ragazza con la valigia, de Valerio Zurlini
19h30 — Enrico IV, de Marco Bellocchio
11 abril
19h30 — Corleone, de Pasquale Squitieri
13 abril
16h30 — Libera, amore mio…, de Mauro Bolognini
19h00 — Gli indifferenti, de Francesco Maselli
14 abril
15h30 — Enrico IV, de Marco Bellocchio
21h30 — The Professionals, de Richard Brooks
15 abril
15h30 — Vaghe stelle dell’Orsa…, de Luchino Visconti
19h00 — O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira
16 abril
15h30 — Fitzcarraldo, de Werner Herzog
17 abril
15h30 — Otto e Mezzo, de Federico Fellini
19h00 — L’udienza, de Marco Ferreri
Bilhetes já disponíveis.
Para mais informações, consulte a programação completa da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.