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Competitiva: novas vozes, territórios instáveis e a liberdade de arriscar
Se a secção Panorama mostra a força já afirmada do cinema italiano contemporâneo, a Competitiva da 19.ª Festa do Cinema Italiano abre espaço ao que ainda está em mutação. É aqui que surgem as vozes mais recentes, os gestos mais livres, os filmes que procuram uma forma própria antes de se deixarem fixar. Entre primeiras e segundas longas-metragens, a seleção em competição revela um cinema que experimenta, desvia, arrisca e, sobretudo, insiste em reinventar os seus modos de contar.
Há, nesta secção, uma pulsação particular. Os filmes não parecem querer representar uma ideia unívoca de Itália, mas antes expor as suas fraturas, os seus desejos contraditórios, as margens onde o drama, a ironia, a violência, a ternura ou o absurdo se tocam. De Cannes a Veneza, de Locarno a Roma, chegam obras que recusam o conforto do previsível e fazem da instabilidade um motor criativo.
Em La gioia, Nicolangelo Gelormini mergulha num território emocional sombrio, onde o desejo de ascensão, a solidão e a impossibilidade de redenção corroem qualquer ilusão de inocência. Valeria Golino conduz o filme com intensidade num universo que ecoa o grande cinema noir, mas o desloca para um presente feroz, onde os afetos já não sabem proteger.
Num registo muito diferente, Le città di pianura, de Francesco Sossai, acompanha a deriva etílica de dois cinquentões e de um estudante de arquitetura pelas estradas da planície veneziana. Entre bares, estações de serviço e pequenos excessos, o filme transforma a banalidade de uma noite em matéria de comédia melancólica e de resistência íntima. É um cinema que encontra, no quotidiano mais errante, uma forma de liberdade.
Também Ultimo schiaffo, de Matteo Oleotto, se move entre o amargo e o cómico, reinventando o imaginário natalício numa paisagem fria e desolada, onde dois irmãos desajeitados perseguem uma recompensa improvável. Entre humor negro e fábula provinciana, o filme observa personagens à deriva com uma mistura rara de ironia e compaixão.
A adolescência e as suas tensões atravessam Un anno di scuola, de Laura Samani, delicado retrato de formação ambientado em Trieste. A chegada de uma rapariga a uma turma de rapazes torna-se o ponto de partida para uma observação subtil sobre desejo, pertença, identidade e assimetrias invisíveis. O filme capta com rigor esse momento frágil em que a juventude ainda não sabe nomear o que a transforma.
Já Testa o croce?, de Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, recupera o western para o deslocar para a Itália do início do século XX. Entre Buffalo Bill, paixões em fuga e uma justiça corrupta, o filme cruza mito, balada popular e ironia, compondo um faroeste inesperado, ao mesmo tempo cinéfilo e profundamente livre.
Mais luminosa, mas não menos incisiva, La vita da grandi, de Greta Scarano, propõe uma comédia sobre laços familiares, inclusão e autonomia. O regresso de Irene à casa de infância e a convivência com o irmão Omar, autista, abrem caminho a um filme delicado, atento às pequenas fricções da vida doméstica, mas também à coragem de imaginar um futuro próprio.
Em Gioia mia, Margherita Spampinato regressa à Sicília para construir um encontro entre um adolescente hiperconectado e uma tia idosa, religiosa e excêntrica, num palácio suspenso no tempo. Entre lendas, superstições e choques geracionais, o filme encontra um tom terno e singular, transformando o verão num território de descoberta e reconciliação.
Vista em conjunto, a Competitiva desta edição afirma-se como um lugar de pluralidade estética e emocional. Há aqui cinema de género, comédia negra, drama íntimo, formação, western, fábula e observação social. Mas, acima de tudo, há filmes que recusam fórmulas prontas e que procuram, em cada gesto, uma relação nova entre forma, mundo e imaginação.
É nesse risco que a secção encontra a sua identidade. Não como vitrine de tendências, mas como espaço vivo onde o cinema italiano continua a nascer, a falhar, a surpreender e a reinventar-se.